Os prints que revelam ‘gambiarra’ de desembargador para soltar chefe do PCC condenado a 126 anos
17/02/2026
(Foto: Reprodução) Um dos maiores traficantes do Brasil, Gerson Palermo quebra tornozeleira eletrônica e foge
Trocas de mensagens obtidas pela Justiça e detalhadas no Processo Administrativo Disciplinar (PAD), aberto pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) contra o desembargador aposentado Divoncir Schereiner Maran, mostram a preocupação de assessores que atuaram na soltura de Gerson Palermo.
O traficante é considerado um dos principais chefes do Primeiro Comando da Capital (PCC) e fugiu oito horas após ser solto, em abril de 2020. Palermo foi condenado a 126 anos de prisão por tráfico de drogas, associação para o tráfico e pelo sequestro de uma aeronave em 2000.
✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 MS no WhatsApp
O desembargador foi aposentado compulsoriamente. A punição foi aplicada porque o magistrado concedeu prisão domiciliar ao traficante. O g1 não encontrou a defesa de Divoncir Maran.
Trocas de mensagens entre assessores
O g1 teve acesso ao documento do CNJ que analisa a conduta do desembargador, aposentado compulsoriamente como punição no dia 10 de fevereiro deste ano. O relatório apresenta prints de trocas de mensagens entre assessores que atuavam no gabinete do desembargador. Veja uma das trocas de mensagens abaixo:
Assessor 1 - "Desculpa o horário... esqueci de avisar antes. Fiz uma 'gambiarra' e deferi o pedido de prisão preventiva conforme o Des Divoncir determinou. Tem supressão de instância e o paciente comprovou apenas ser idoso (não há provas de doenças que alegou no HC)".
Assessor 2 - "O cara é traficante, então determinei a prisão domiciliar mediante monitoramento eletrônico".
Trocas de mensagens obtidas pelo CNJ entre assessores de desembargador punido por soltar chefe de facção.
Reprodução
No processo administrativo, o CNJ reforça que o fato de Gerson Palermo ser considerado idoso não seria suficiente para que o traficante fosse colocado em prisão domiciliar, por se tratar de "indivíduo de elevada periculosidade". À época, a defesa de Palermo entrou com Habeas Corpus alegando riscos à saúde do traficante em meio à pandemia de Covid-19.
Em outra mensagem da assessora com um contato pessoal enfatiza que não queria ter feito o pedido de prisão ao traficante.
- O desembargador mandou, eu obedeci. Mas nunquerianão. Na verdade, quem soltou, eu apenas fiz o que ele determinou.
Assessora relatou que não queria ter elaborado documento que soltou Palermo.
Reprodução
Soltura de chefe do PCC acende alerta para venda de sentenças
O desembargador Divoncir Schereiner Maran é um dos sete investigados na operação Ultima Ratio, que apura esquema de venda de sentenças no Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul (TJMS).
No processo administrativo contra o magistrado, as trocas de mensagens obtidas pela Justiça apontam que o magistrado já teria atuado com venda de sentenças antes da decisão que soltou Palermou. Sobre a soltura do chefe do PCC, os assessores levantam a hipótese da venda de decisões:
Assessor 1 - "Custou quanto será?"
Assessor 2 - "Não duvido nada viu."
Assessor 1 - "Certeza"
Assessor 1 - "Quem foi o desembargador?"
Assessor 2 - "Divoncir."
Assessor 1 - "Essa já tem fama neh"
Assessor 2 - "Já... mas não é escrachada"
Troca de mensagens falam sobre conduta de magistrado.
Reprodução
Mensagens mostram suspeitas de atuação de desembargador com venda de sentenças.
Reprodução
Condenações e histórico criminal
Divoncir Maran concedeu liberdade a Gerson Palermo durante plantão do feriado de Tiradentes, em 2020.
Reprodução
Palermo foi condenado a 59 anos de prisão por tráfico de drogas e associação para o tráfico, crimes investigados durante a Operação All In, deflagrada pela Polícia Federal em março de 2017. A ação ocorreu em seis estados e resultou na apreensão de 810 quilos de cocaína.
As investigações apontaram que a droga era transportada da Bolívia até Corumbá (MS) por aviões e, depois, levada por caminhões dentro do Brasil. O grupo usava aeronaves, caminhões e veículos registrados em nome de terceiros, segundo a Polícia Federal.
Sequestro de avião
Além dessa condenação, Palermo recebeu outra pena de 66 anos e 9 meses de prisão pelo sequestro de um Boeing 727 da empresa Vasp, ocorrido em agosto de 2000. Ao todo, as penas somam quase 126 anos de detenção.
Segundo a investigação, o sequestro aconteceu cerca de 20 minutos após a decolagem do avião do Aeroporto Internacional de Foz do Iguaçu, com destino a Curitiba. A aeronave foi forçada a pousar em Porecatu, no Paraná. No local, a quadrilha roubou nove malotes do Banco do Brasil com cerca de R$ 5,5 milhões.
Punição ao desembargador
O Conselho Nacional de Justiça puniu o desembargador Divoncir Schreiner Maran com aposentadoria compulsória após concluir que a decisão que concedeu prisão domiciliar a Palermo extrapolou os limites da atuação judicial.
Segundo o relator do Processo Administrativo Disciplinar, conselheiro João Paulo Schoucair, a concessão do benefício ocorreu sem comprovação médica e violou deveres da magistratura.
O CNJ também apontou que investigações da Polícia Federal identificaram movimentações financeiras consideradas incompatíveis com a renda declarada do magistrado.
Ao final do julgamento, o relator afirmou que os fatos analisados demonstram violação aos deveres de imparcialidade, prudência e decoro exigidos de integrantes do Judiciário.
Veja vídeos de Mato Grosso do Sul: