Nome falso, ameaças e isolamento: como golpista manteve mulher em cárcere por 3 meses
16/09/2026
(Foto: Reprodução) Mulher perde R$ 30 mil e relata violências após viver 3 meses com golpista
Em três meses, uma mulher de 39 anos se afastou da família, trocou de telefone, registrou boletins de ocorrência contra a própria mãe, o pai, o irmão, o ex-marido e o ex-cunhado e perdeu pelo menos R$ 30 mil. Segundo ela, tudo aconteceu enquanto vivia sob o controle de um homem que conheceu pelo Tinder, em Campo Grande.
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O suspeito, conforme o relato da vítima, alimentava a ideia de que ela e os filhos corriam perigo. Dizia que o ex-marido havia contratado criminosos para matá-los, mostrava supostas conversas de familiares contra ela e, ao mesmo tempo, se apresentava como a única pessoa capaz de protegê-los.
Até o nome usado por ele era falso. Para a mulher, ele era Wellington Vieira da Silva, de 29 anos. Segundo a polícia, trata-se de Heliton Vargas Portela, de 31 anos.
A mentira começou a cair justamente quando a vítima foi à Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam) para registrar mais uma denúncia contra familiares. Lá, descobriu a verdadeira identidade do homem com quem vivia havia três meses.
Heliton foi preso na sexta-feira (11) e teve a prisão preventiva mantida pela Justiça no domingo (13). O g1 tentou contato com a Defensoria Pública, responsável pela defesa do suspeito, mas não conseguiu retorno até a última atualização desta reportagem.
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Reprodução
Do ‘mar de rosas’ ao medo
Os dois se conheceram em maio pelo Tinder. Segundo a mulher, o primeiro mês foi um “mar de rosas”. Ele era carinhoso com ela e com os filhos e, pouco tempo depois, passou a morar com a família.
Depois, o comportamento mudou. O namorado começou a dizer que ela e os filhos estavam ameaçados. Afirmava que o ex-marido havia contratado criminosos para matá-los e chegou a dizer que poderiam colocar fogo na casa.
Ao mesmo tempo, em que alimentava o medo, apresentava-se como a única pessoa capaz de protegê-los. “Só ele que podia sair com vida dali. Então ele tinha que ficar com nós.”
A mulher conta que trocou de número e de aparelho celular, deixou de sair livremente e passou a ser monitorada.
Segundo o boletim de ocorrência, o suspeito também mostrava supostas conversas da mãe e do ex-marido com ataques contra ela. A polícia registrou que as imagens podem ter sido criadas com inteligência artificial.
BOs contra mãe, pai, irmão e ex-marido
Aos poucos, a mulher se afastou justamente das pessoas que poderiam ajudá-la. A mãe chegou a desconfiar da identidade do namorado e tentou descobrir quem ele realmente era. Àquela altura, porém, já não conseguia falar com a filha.
A vítima afirma que, por determinação do suspeito, registrou boletins de ocorrência contra a mãe, o pai, o irmão, o ex-marido e o ex-cunhado. Dentro de casa, segundo ela, o controle chegou às decisões mais básicas.
Um dos filhos tem deficiência física e mental e precisa de cuidados. A mulher conta que o namorado restringiu a participação dela nessa rotina e outro filho, de 15 anos, passou a assumir parte das tarefas.
Ela diz que precisava avisar até quando queria ir ao banheiro ou levantar durante a madrugada para cuidar do filho. “Tudo eu tinha que perguntar. Tudo eu tinha que falar para ele.”
A mulher relata ainda ter sido agredida três vezes e obrigada a manter relações sexuais pelo menos quatro vezes por dia.
No boletim de ocorrência ao qual o g1 teve acesso, o caso foi registrado como sequestro e cárcere privado, falsa identidade, denunciação caluniosa, violência psicológica contra a mulher e estelionato.
Vítima em conversa com o g1
José Aparecido
Controle chegou ao dinheiro
A vítima também afirma ter perdido pelo menos R$ 30 mil durante os três meses.
Ela recebia cerca de R$ 11 mil mensais de pensão alimentícia. Conforme o boletim de ocorrência, o suspeito assumiu o controle do celular com os aplicativos bancários e passou a movimentar as contas e fazer saques.
Para justificar a falta de dinheiro, dizia que o ex-marido havia parado de pagar a pensão. Também afirmava ter valores retidos pela Receita Federal e prometia comprar uma casa para o casal quando o dinheiro fosse liberado.
Foi à delegacia denunciar a família e descobriu quem ele era
Na sexta-feira (11), a mulher foi à Deam para acusar o ex-marido e o irmão de terem apontado armas contra ela. Segundo o relato posterior da própria vítima, a situação não aconteceu e a denúncia havia sido determinada pelo namorado.
A delegada percebeu inconsistências na história. A polícia também tinha conhecimento de uma denúncia feita pelo Ligue 180 que apontava a própria mulher como vítima de Heliton.
O suspeito acompanhava o atendimento pelo telefone. Quando conseguiu conversar reservadamente com a delegada, a mulher deixou o aparelho do lado de fora.
Foi então que policiais mostraram fotos de Heliton preso anteriormente. Só naquele momento ela descobriu que o homem que conhecia como Wellington não era quem dizia ser.
A mulher contou que os boletins de ocorrência contra os familiares haviam sido registrados sob pressão e voltou na denúncia que acabara de fazer.
Para ela, descobrir a verdadeira identidade do namorado também significou perceber que poderia sair daquela situação. “Na verdade, eu senti um alívio. [...] Eu já estava pedindo para Deus me tirar ele dali.”
Heliton estava a poucas quadras da delegacia, em um carro e acompanhado da filha de 8 anos da vítima, quando foi localizado pela polícia. A criança foi entregue à mãe.
Com ele, foram encontrados R$ 2.885 em espécie, dinheiro que, segundo a mulher, pertencia a ela.
Quem era o homem que ela conhecia como Wellington
Segundo informações repassadas pelo Tribunal de Justiça, Heliton aparece em processos criminais em Campo Grande, Ponta Porã, Nova Andradina e Maracaju. Há ainda cartas precatórias de Nova Londrina (PR) relacionadas a violência doméstica.
Em março deste ano, ele foi condenado a 6 anos e 4 meses de prisão por roubo com uso de faca, em Maracaju. A decisão estava em fase de recurso.
Naquele caso, segundo o processo, outra vítima foi ameaçada e obrigada a acessar o banco, contratar um empréstimo e transferir R$ 25 mil para Heliton.
Recomeço
Depois da prisão, a mulher voltou para casa. Agora, tenta reconstruir a relação com a família da qual havia se afastado e retomar a rotina com os filhos.
Ela ainda sente medo, mas voltou a fazer coisas simples que, durante os três meses, diz não ter liberdade para decidir sozinha.
Uma das primeiras foi dormir sozinha. “Foi a primeira coisa que fiquei alegre. De não ter ninguém ali, de levantar a hora que você quer, dormir a hora que você quer.”
Quando perguntada pelo g1 sobre o que sente agora que o suspeito não está mais dentro de casa, respondeu sem hesitar: “De liberdade.”
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