'Alfaces-d'água' cobrem represa, derrubam movimento no comércio e preocupam moradores em MS

  • 14/08/2026
(Foto: Reprodução)
Plantas aquáticas comprometem equilíbrio ambiental na região da represa do Mimoso O avanço descontrolado de plantas aquáticas sobre a represa do Mimoso, em Ribas do Rio Pardo (MS), está transformando a paisagem local, impedindo a navegação e gerando prejuízos para o comércio, o turismo e a pesca na região. Cerca de 25% da área do reservatório de 1.300 hectares, formado pela usina hidrelétrica Mimoso, já está tomada por um denso tapete verde. A proliferação das plantas, conhecidas como "alfaces-d'água" ou macrófitas, acendeu um alerta para os impactos ambientais no ecossistema. A vegetação impede a entrada de luz solar nas águas mais profundas, o que prejudica a fotossíntese de outras espécies vegetais e reduz o oxigênio disponível, ameaçando a sobrevivência de peixes e outros organismos. Além disso, o acúmulo de plantas faz com que o lago se torne gradualmente mais raso. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 MS no WhatsApp 🔎As macrófitas aquáticas, popularmente chamadas em algumas regiões de "alfaces-d'água", são plantas que vivem total ou parcialmente em ambientes aquáticos, como rios, lagoas, represas, brejos e áreas alagadas. Essas plantas se proliferam rapidamente quando há presença de nutrientes na água. Têm diversas funções para o meio ambiente, como filtragem da água e habitat para peixes, insetos e outros animais. Contudo, em excesso causam impactos negativos. A mudança drástica no cenário dificulta atividades cotidianas e de lazer. Moradores relatam que barcos já não conseguem navegar devido ao peso e à densidade da vegetação, que se enrosca nos motores. "Ela está proliferando e vindo dos rios para cá e vai fechando até os rios, vai subindo as outras áreas de lazer na beira do rio também, que tem as fazendas, que tem pessoal que pega um peixinho para comer, não consegue pescar mais. E para baixo, quando a usina solta a macrófita, que ela vai soltar, que ela não pode soltar muito porque também diminui o fluxo de água para a usina trabalhar, ela afeta os pescadores para baixo", relata o empresário e morador, Cláudio Deocleciano Correia. Impacto ambiental e fauna afetada Especialistas alertam para os riscos ecológicos causados pelo bloqueio da luz solar, que pode impactar a fotossíntese de plantas presentes dentro da água do lago. "A fotossíntese é importante e os raios solares fazem isso. É possível que ali os peixes podem ser prejudicados. Porque a água vai estar com pouco oxigênio e pouco oxigênio não permite que eles sobrevivam nesse ambiente", explica o diretor do Instituto Delta Salobra, Felipe Augusto Dias. Até mesmo a fauna terrestre tem enfrentado barreiras físicas para se deslocar pela região. Um morador relatou que animais de grande porte já não conseguem cruzar o reservatório. "Por exemplo, a anta atravessa de um lado para o outro, ela já não travessa mais aqui. Porque aqui você via, ela saia aqui da chácara, aqui beirando a estradinha, que você vê bastante batida de anta, já não vê mais, porque ela não consegue atravessar a represa. Então ela atrapalha também até o meio ambiente, sim", disse o diretor. LEIA TAMBÉM Captação de água é reduzida em Corumbá após vegetação flutuante bloquear bombas no Rio Paraguai Prejuízo econômico e desvalorização O comércio e o turismo locais, que dependiam do fluxo de visitantes atraídos pela represa, registram perdas severas. Proprietários de chácaras e investidores de barcos e motos aquáticas relatam frustração com o cenário atual. "Olha, nós temos, o fluxo aqui era bom, o pessoal, no final de semana, vinha, vinha com a família. Como a gente tem um comerciozinho aqui também, comprar gelo, comprar tudo, caiu tudo, mais de 80%. Acabou o nosso movimento aqui. O pessoal está desesperado, não sabe o que vai fazer agora", lamenta o comerciante Edevaldo Oliveria Cardoso. Edevaldo, que é dono de uma mercearia na região, relatou que a falta de clientes pode forçá-lo a fechar as portas ou mudar de endereço. "Com essa macrófita que surgiu aí no rio se tornou dificultoso, porque daí o pessoal não está vindo mais, parou de vir, diminuiu bastante o pessoal aqui. Porque a comunidade nossa aqui, ela ficou esquecida. E eu acredito também que, se não melhorar, vai acabar. Porque está vencendo o meu contrato, se a situação aqui não melhorar, vou ter que ir para outro lugar", comenta. Causas da proliferação Embora as macrófitas sejam comuns em ecossistemas aquáticos brasileiros e atuem na filtragem natural da água, o crescimento desordenado indica desequilíbrio ecológico provocado por excesso de nutrientes, que pode ter origem em contaminações. "Porque elas absorvem esses nutrientes e transformam em vegetal. Então, quanto mais crescente está, maior é a quantidade que está chegando de nutrientes e ela está tentando retirar esses nutrientes do local. Nutrientes que, necessariamente, não são bons ou adaptados para aquele ambiente. É, são nutrientes que não deveriam estar ali porque eles chegaram porque algum tipo de contaminação", explica Felipe Augusto Dias. As causas específicas para o acúmulo no Lago Mimoso ainda precisam ser avaliadas. No entanto, estudiosos apontam duas principais frentes de investigação. Uma delas é a falta de manejo do solo e ausência de áreas de preservação permanente, que facilitam o escoamento superficial e levam nutrientes para dentro de córregos e rios. Outra hipótese é de que a questão possa ser pontual, causado por algum confinamento ou indústria. Contudo, o direto do Instituto Delta do Salobra afirma que ainda não é possível determinar a causa do problema. Fiscalizações e atuação no local O Imasul informou que tem conhecimento da situação e já realizou fiscalizações na região, com inspeções em empreendimentos, propriedades rurais e ocupações situadas na bacia, além de coletas de água, análises laboratoriais e levantamentos com drones e imagens de satélite. A reportagem teve acesso ao relatório produzido pelo órgão ambiental. O documento aponta que o acúmulo excessivo de macrófitas no reservatório e no Rio Pardo é resultado de múltiplos fatores. Entre os responsáveis identificados pelo Imasul estão a empresa Suzano, a Estação de Tratamento de Esgoto de Ribas do Rio Pardo e os resíduos urbanos. O relatório cita ainda a própria barragem da Usina Mimoso, que reduz a força da água, além de impactos provocados pela atividade agropecuária e por loteamentos no entorno. A Usina Hidrelétrica Assis Chateaubriand, responsável pelo lago, informou que realiza monitoramentos periódicos seguindo protocolos operacionais previstos no Plano Básico Ambiental. A empresa também disse que fez a liberação de água pelo vertedouro em outubro do ano passado, assim que recebeu autorização do Imasul. Leia a nota na íntegra mais abaixo. Segundo a usina, o fenômeno de acúmulo de macrófitas é recente. Embora a situação esteja sob controle, o crescimento das plantas aquáticas tem exigido iniciativas adicionais na operação da usina para evitar uma interrupção temporária da geração de energia. A Prefeitura de Ribas do Rio Pardo informou que atua desde o início da ocorrência e que, até agora, não há estudo que relacione diretamente o crescimento da cidade à proliferação das plantas. A Suzano afirmou que opera dentro dos limites estabelecidos pelo licenciamento ambiental e o fenômeno tem múltiplos fatores. A Sanesul disse que todo o esgoto coletado no município é tratado e que não há elementos técnicos que relacionem a estação de tratamento à proliferação das macrófitas. O que dizem os citados? Em nota, a Elera Renováveis, responsável pela administração da Usina Hidrelétrica Assis Chateaubriand, informou que realiza ações periódicas no local. Leia o retorno na íntegra abaixo: "A Usina Hidrelétrica Assis Chateaubriand (Pantanal Energética LTDA), localizada no município de Ribas do Rio Pardo (MS), realiza monitoramentos periódicos conforme os protocolos operacionais e as condicionantes previstas no Plano Básico Ambiental (PBA) e em sua Licença de Operação. Tão logo as análises identificaram uma concentração elevada de macrófitas, a empresa iniciou a remoção mecanizada das plantas e solicitou, junto ao Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul (IMASUL), autorização para vertimento controlado. O processo seguiu os trâmites legais no órgão, que autorizou formalmente a ação em 2 de outubro de 2025. Após a autorização do IMASUL, a usina realizou o vertimento assim que as condições climáticas permitiram (o que ocorreu em 28 de outubro do mesmo ano). Desde então, o vertimento passou a integrar as ações de manejo da usina e é realizado sempre que as condições hidrológicas permitem, conforme plano aprovado pelo órgão ambiental e sob monitoramento específico. Além das ações voltadas ao manejo das plantas, a usina mantém os monitoramentos ambientais pertinentes, focando na qualidade da água e nas comunidades aquáticas, garantindo o acompanhamento contínuo dos parâmetros ambientais e adotando medidas preventivas e corretivas sempre que necessário. Observa-se que a usina está em operação desde 1969 e, até o início do ano de 2025, o fenômeno de acúmulo de macrófitas não ocorria, portanto, muito recente. Destaca-se, ainda, que os processos de operação da usina não alteram a qualidade da água e não causam os eventos de acúmulos. A usina está em operação desde 1969 e a presença das macrófitas, principalmente as fixas, é natural em sistemas aquáticos e pode trazer benefícios ao ecossistema, como abrigo e alimentação para fauna aquática. O que se observa atualmente, a partir do início de 2025, na UHE Assis Chateaubriand, é o acúmulo significativo de espécies flutuantes, embora ainda dentro dos limites técnicos de controle. Não é possível à UHE afirmar quais as razões para a alteração da qualidade da água, mas os monitoramentos mostram acréscimo no carreamento de nutrientes e matérias orgânicas no leito do curso d’água, vindo de atividades ao longo da bacia hidrográfica. É importante destacar que a usina e sua barragem estão seguras. As ações de manejo são realizadas justamente para evitar impactos operacionais. Sem esse manejo, um grande volume de macrófitas poderia se desprender e se acumular nas grades da tomada d'água, aumentando a possibilidade de interrupção temporária da geração de energia até a desobstrução da estrutura. Embora a situação esteja sob controle, o acúmulo de macrófitas flutuantes tem demandado iniciativas adicionais na operação da usina. Parte dessas plantas ultrapassa as grades de proteção e adentra o sistema de captação, exigindo limpezas frequentes dos filtros e das estruturas de captação, inclusive com o apoio de mergulhadores em determinadas situações. Essas intervenções podem exigir interrupções temporárias da geração para a realização das atividades de limpeza, além de demandarem recursos adicionas". Leia na íntegra a nota da Suzano: "A Suzano reafirma seu compromisso com a gestão ambiental responsável, o monitoramento contínuo de suas operações e a preservação dos recursos hídricos, conduzindo suas atividades em estrita observância à legislação ambiental e às condições estabelecidas em suas licenças ambientais. A operação da unidade é conduzida em conformidade com os parâmetros e limites estabelecidos em seu licenciamento ambiental. A empresa realiza monitoramento contínuo de seus processos e mantém diálogo permanente com os órgãos competentes. Importante esclarecer que, mesmo no intervalo de três meses citado no relatório, ocorrido há 2 anos durante a fase inicial de operação da unidade, a carga orgânica lançada no Rio Pardo permaneceu abaixo do limite autorizado pelo órgão ambiental, uma vez que o volume de efluente lançado foi significativamente inferior ao limite de vazão autorizado. Especialmente quanto ao relatório mencionado, a empresa apresentou todos os esclarecimentos técnicos solicitados pelo IMASUL, permanecendo à disposição para colaborar com as avaliações conduzidas pelo órgão. Importante destacar, ainda, que o próprio relatório reconhece que as condições observadas no reservatório decorrem de múltiplos fatores presentes na bacia hidrográfica, razão pela qual sua avaliação deve considerar o conjunto de elementos técnicos envolvidos. A empresa reitera seu compromisso com a transparência, a cooperação institucional e a adoção das melhores práticas de gestão ambiental". Leia a nota na íntegra da Sanesul: "Em resposta ao seu questionamento, informamos que, em 2021, foi celebrado o contrato da Parceria Público-Privada (PPP) entre a Sanesul e a Ambiental MS Pantanal, empresa do grupo AEGEA, com o objetivo de universalizar a coleta e o tratamento de esgoto sanitário em todos os municípios em que a empresa atua. Assim, a operação, a manutenção e a ampliação dos sistemas de esgotamento sanitário foram designadas à Ambiental MS Pantanal, bem como a responsabilidade por eventuais danos ambientais decorrentes da operação e/ou manutenção dos sistemas que estejam fora dos padrões e das regras estabelecidos no Contrato nº 018/2021. Em relação aos apontamentos citados, destaca-se que todos foram objeto de relatórios específicos e de análise técnica, sendo que as inconformidades de natureza operacional identificadas receberam tratamento imediato, com a adoção das medidas corretivas e preventivas necessárias. Entre essas providências estão a execução de serviços de manutenção, limpeza e conservação das unidades, além da regularização dos equipamentos. A Sanesul desconhece a informação de que, na operação da Ambiental MS Pantanal, haveria prática de lançamento de esgoto bruto por meio de sistema de by-pass. Todo o esgoto coletado pela Companhia no município de Ribas do Rio Pardo é encaminhado para tratamento, sendo 100% do volume coletado devidamente tratado antes de seu lançamento, em estrita observância às exigências legais e ambientais. Tampouco autoriza a realização de qualquer procedimento de desvio (by-pass) de esgoto bruto para o corpo hídrico. Quanto ao Lago Mimoso, não há elementos técnicos que permitam estabelecer nexo causal entre o funcionamento da ETE e o fenômeno mencionado, inexistindo relação direta entre sua operação e o acúmulo de macrófitas observado no local. Cumpre esclarecer que o referido corpo hídrico encontra-se distante, aproximadamente 30 km, do atual emissário da Estação de Tratamento de Esgoto. Quanto aos apontamentos relacionados à capacidade da ETE, é importante contextualizar que Ribas do Rio Pardo experimentou, nos últimos anos, um expressivo crescimento populacional e industrial, especialmente em razão da implantação de grandes empreendimentos no município. Em resposta a essa nova realidade, a Sanesul e a MS Pantanal já estruturaram uma solução definitiva para a ampliação do sistema de esgotamento sanitário, contemplando a implantação de uma nova Estação de Tratamento de Esgoto. O empreendimento já integra o planejamento de investimentos da Sanesul. Inclusive, a empresa conta com recursos aprovados pela CAIXA e pelo Ministério das Cidades, e o projeto da nova estação encontra-se em fase de revisão, devendo ser licitado em breve. A Ambiental MS Pantanal, por sua vez, já se encontra mobilizada para a execução das obras de sua responsabilidade. A Sanesul reafirma seu compromisso com a prestação adequada dos serviços de saneamento básico, com a proteção dos recursos hídricos, com o cumprimento das exigências legais e com a transparência na divulgação de informações. A qualidade da operação dos sistemas de esgotamento sanitário é acompanhada continuamente por meio dos indicadores de desempenho previstos no Contrato de Parceria Público-Privada nº 018/2021, os quais contemplam critérios operacionais, ambientais e de eficiência dos sistemas, incluindo o monitoramento da qualidade do efluente tratado. Esses indicadores são aferidos periodicamente e submetidos à fiscalização da SANESUL, bem como à verificação por Verificador Independente, assegurando o cumprimento dos padrões técnicos e ambientais estabelecidos e promovendo a melhoria contínua da prestação dos serviços à população. Quando os parâmetros contratuais ou os padrões técnicos e ambientais, não são atendidos, as ocorrências são formalmente registradas como não conformidades, sendo a Ambiental MS Pantanal SPE notificada para adoção das medidas corretivas cabíveis, conforme os procedimentos e prazos previstos contratualmente, sem prejuízo da aplicação das penalidades e demais consequências contratuais, quando aplicáveis". Leia o posicionamento da prefeitura de Ribas do Rio Pardo: "Em atenção aos questionamentos encaminhados acerca da proliferação de macrófitas no Lago da Usina Hidrelétrica do Mimoso, a Prefeitura Municipal de Ribas do Rio Pardo presta os seguintes esclarecimentos. Inicialmente, considerando que o e-mail encaminhado por essa emissora faz referência a uma nota técnica elaborada pelo Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul (IMASUL), solicitamos, se possível, o compartilhamento do referido documento ou a indicação de sua publicação oficial. Até o presente momento, a Prefeitura Municipal não teve acesso a essa nota técnica e, por esse motivo, não dispõe de elementos para comentar especificamente seu conteúdo ou as conclusões eventualmente apresentadas. Caso o documento seja disponibilizado oficialmente, o Município realizará sua análise técnica e, se necessário, complementará os esclarecimentos ora prestados. É importante destacar que a proliferação de macrófitas é um fenômeno ambiental amplamente reconhecido como multifatorial, podendo estar relacionada a diferentes condições naturais e antrópicas, cuja identificação exige estudos específicos, monitoramento contínuo da qualidade da água e avaliação de toda a bacia hidrográfica contribuinte do reservatório". Plantas aquáticas comprometem equilíbrio ambiental na represa do Mimoso, em Ribas do Rio Pardo (MS). Reprodução/TV Morena Veja vídeos de Mato Grosso do Sul:

FONTE: https://g1.globo.com/ms/mato-grosso-do-sul/noticia/2026/08/14/alfaces-dagua-cobrem-represa-derrubam-movimento-no-comercio-e-preocupam-moradores-em-ms.ghtml


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