A gatinha que perdeu tutor e ganhou novo lar após cruzar oceano e viagem de 40 horas por três países
22/09/2026
(Foto: Reprodução) Gata enfrenta 40 horas de viagem até novo lar nos EUA após morte do tutor em MS
A despedida de José Pereira, de 73 anos, não terminou no velório. Para a filha, a diretora de Recursos Humanos Joseli Gomes, levar Aninha, a gata que pertencia ao pai, para os Estados Unidos foi uma forma de preservar um dos vínculos mais afetivos deixados por ele.
José morreu de um infarto fulminante em Campo Grande, em julho deste ano. A morte foi inesperada e interrompeu os planos de uma viagem que faria com a esposa para os Estados Unidos.
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Aninha, por sua vez, tirou de letra a viagem de 40 horas até Chicago e hoje se adapta à nova rotina, sem o tutor querido, que partiu de forma inesperada.
Gata Aninha viajando rumo aos EUA.
Joseli Gomes.
Uma gata que escolheu o próprio tutor
Joseli conta que Aninha chegou à vida de José de surpresa, em meados de 2020, durante a pandemia. A gata havia sido resgatada da rua por um veterinário que morava próximo à casa da família.
Com o tempo, Aninha começou a pular o muro para ficar na companhia de José, carinhosamente chamado de “Fofo” pela família.
“Ela que escolheu o meu pai”, contou Joseli.
A aproximação entre os dois se tornou tão forte que o veterinário permitiu que a família ficasse definitivamente com a gata. Aninha passou a fazer parte da rotina de José e permaneceu ao lado dele até a morte, em julho deste ano.
Joseli, Aninha e o José.
Joseli Gomes.
Cerca de 15 minutos antes de morrer, José conversou por telefone com a filha, como fazia habitualmente. Ele estava aparentemente bem e se preparava para viajar com a esposa para os Estados Unidos.
O casal havia realizado exames de rotina e faltavam pouco mais de 30 dias para a viagem quando a fatalidade interrompeu os planos.
A decisão de levar Aninha para os Estados Unidos
Depois da morte do pai, Joseli voltou dos Estados Unidos para Campo Grande. Em meio ao luto e às responsabilidades com a família, surgiu a ideia de levar Aninha para Chicago.
A mãe de Joseli, dona Joselina, a "Fofa", permaneceria em Campo Grande, enquanto a irmã mora na Bahia. Para a filha, deixar a gata para trás não era uma opção.
“Não teria como minha mãe deixar ela hospedada meses em um hotel para pets, ou ficar levando a Aninha também a cada viagem”, explicou.
Aninha viajando com Joseli.
Joseli Gomes.
Joseli então começou a preparar a gata para a mudança. Como nunca havia viajado de avião com um gato, procurou a veterinária responsável pelos cuidados de Aninha em Campo Grande.
“Eu nunca tinha viajado com um gato de avião. Entrei em contato com a minha veterinária, a Daí, de Campo Grande, e ela me orientou a fazer todos os check-ups na Ana. A gente fez até limpeza de dente, fez tudo, para eu não ter que gastar nada com ela aqui. E aí começamos todo o procedimento para poder trazer ela”, contou.
Em meio às providências relacionadas à morte do pai, Joseli descobriu, na véspera do embarque, que ainda precisava resolver um procedimento junto ao Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) para conseguir a autorização de saída internacional de Aninha.
Com o voo marcado para o dia seguinte, ela correu contra o tempo para resolver a pendência. Depois de muita apreensão, recebeu a confirmação de que a documentação havia sido liberada.
No fim, deu tudo certo e as duas deram início à longa viagem rumo a Chicago.
Drone, conexão perdida e 40 horas de viagem
O trajeto, que normalmente já exige conexão, acabou ficando ainda mais complicado por causa de atrasos e de uma ocorrência com drone no Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo.
Aninha curtindo o voo.
Joseli Gomes.
O avião em que Joseli e Aninha estavam não conseguiu pousar inicialmente em Guarulhos e precisou seguir para Campinas. Depois de mais de uma hora, a aeronave retornou ao aeroporto paulista, mas Joseli perdeu a conexão.
A viagem, que começou na casa dela em Campo Grande, terminou cerca de 40 horas depois, em Chicago.
Da capital de Mato Grosso do Sul, Joseli e Aninha passaram pelo Aeroporto de Guarulhos, seguiram para Bogotá, na Colômbia, e só então chegaram aos Estados Unidos.
Mesmo diante de todos os imprevistos, Aninha se comportou bem durante o percurso, lembra Joseli. Em alguns momentos, ficou no colo da nova tutora e, quando se cansava, voltava para a caixa de transporte para dormir.
“Parecia que ela já tinha viajado várias vezes”, contou.
Entre uma conexão e outra, Aninha chegou a fazer amizade com alguns passageiros.
Novo lar, novos companheiros
Agora, Aninha vive com Joseli e os outros dois gatos da casa, Preto e Mia, que já moravam com ela em Chicago. Os três têm até um perfil nas redes sociais.
Aninha junto do Preto e Mia.
Joseli Gomes.
A adaptação, no entanto, ainda está em andamento. Aninha já teve alguns conflitos com Preto, enquanto Mia demonstra ciúmes com a chegada da nova gata.
Apesar dos desafios, Joseli diz estar feliz por ter conseguido cumprir aquilo que considera uma promessa feita ao pai. Ela lembra que José dizia que não queria ver Aninha morrer.
Durante a viagem de volta aos Estados Unidos, Joseli conta que conversava mentalmente com o pai.
“Eu falei: ‘Pai, o senhor descanse em paz, que eu vou cuidar da Aninha e da Fofa’.”
Aninha descansando durante a viagem.
Joseli Gomes.
Para Joseli, transportar a gata de Campo Grande até os Estados Unidos não foi apenas uma questão de logística ou de dinheiro. Foi uma decisão movida pelo afeto e pela necessidade de manter viva uma parte da história do pai.
“Eu sou muito apaixonada pelos animais e, para mim, a Aninha é um membro da família. É um pedacinho do meu Fofo. Eu sempre pego ela no colo e falo: ‘Pedacinho do Fofo que ficou para mim. Minha herança’.”
A história de Aninha representa, para Joseli, uma forma de continuidade. José se foi, mas parte da rotina, dos afetos e das lembranças construídas ao lado dele agora segue viva na memória da filha, e também na companhia da gata que um dia o escolheu.
Mais do que levar um animal de estimação para outro país, Joseli acredita ter levado consigo uma pequena parte do pai.
“Eu não perdi só um pai, eu perdi meu melhor amigo. Eu falava com ele duas vezes por dia. Meu pai era o amor da minha vida. Ele nunca vai deixar de ser. Ele foi para outro plano, mas morrer, morrer, ele nunca vai morrer dentro de mim. Nunca. Ele está aqui, atravessado, vivo. Eu converso com ele”, concluiu Joseli.
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